Ambientes análogos aos extraterrestres são importantes para avanços em todas as áreas da exploração espacial.

Respondendo à pergunta do título: com certeza mais do que imaginamos! Ambos são locais secos, frios e isolados. E podemos aproveitar esses locais tão perto de nós para estudar ambientes extraterrestres. É o que diversos estudos realizados no Ártico, Antártica, Deserto do Atacama, fontes termais de Yellowstone, entre outros, se propõem. Com o frio de Europa, Encélado e Titã (a primeira lua de Júpiter e as outras de Saturno) e dessecação em Marte, não é à toa que esses lugares extremos estão no topo dos ambientes análogos aos extraterrestres!

Marte. Fonte: NASA Images.

O histórico dos trabalhos com esses ambientes começa lá no século XIX, comparando crateras e meteoritos com outros atributos do relevo terrestre. Porém, foi só em 1997 que a NASA começou oficialmente os estudos análogos com um caráter mais prático, com o Desert RATS, para desenvolvimento de tecnologia relacionada à transporte e rovers. Segundo a Agência Espacial Americana, as Missões Análogas hoje são realizadas por três motivos (traduzido de NASA):

1. Poucos experimentos podem ser enviados ao espaço, pois há pouco tempo, dinheiro, equipamentos e mão-de-obra;

2. Replicatas devem ser testadas e terem sucesso em análogos antes de serem enviadas ao espaço;

3. Estudos análogos são mais rápidos e baratos.

Todos os aspectos da exploração espacial se beneficiam muito com esse sistema de estudos, e alguns deles são:

Extremófilos

Se na Antártica encontramos bactérias e arqueias tolerantes a frio extremo, dessecação e radiação, em Marte e em outros corpos celestes também esperaríamos encontrar essa mesma classe de organismos (como já discutido no texto EXISTE VIDA FORA DA TERRA?). O estudo dos mecanismos de resistência dos extremófilos (aqueles que vivem em ambientes considerados extremos) permite entender como poderiam ser as formas de vida fora da Terra, capazes de suportar todas as condições abióticas.

Voltando à Marte como exemplo, ainda não temos comprovação de vida no Planeta Vermelho. Uma alternativa que pode mudar esse paradigma é buscar abaixo do gelo. Isso porque o gelo pode conservar seres vivos em seu interior e, se derretido, essas células ainda se mantêm viáveis após séculos de dormência.

Treinamento de pessoal

A Antártica, árida e isolada, dá uma vibe bem interessante para entender os efeitos psicológicos e das condições extremas no corpo humano. As simulações das agências espaciais ocorrem na Estação Americana Antártica e na Base Concordia, por exemplo, e os profissionais selecionados devem aguentar frio e vento extremos, solidão e desregulação do relógio biológico. Tudo o que vão vivenciar lá em cima, na Estação Espacial e quem sabe eventualmente em outros planetas. E você, encararia?

Teste de equipamentos

Muitas das tecnologias e equipamentos enviados para o espaço são testados antes nos ambientes análogos. Um exemplo é o projeto IceBite da NASA, uma perfuradora de gelo a fim de acessar o permafrost de Marte. A IceBreaker, como é chamada, foi testada em 2013 no Vale Seco de McMurdo, Antártica, e tem como foco estudar a microbiologia marciana.

IceBreaker e seus instrumentos. Fonte: NASA Images

Além de Marte

Como já comentado, Marte não é o único corpo celeste que pode ser estudado com ajuda dos ambientes análogos. Os lagos subglaciais antárticos, como o Vostok, por exemplo, podem ser análogos à Europa, lua de Júpiter que possui oceano abaixo de uma camada de gelo. O Rover BRUIE (Buoyant Rover for Under-Ice Exploration ou, em tradução livre: Rover Flutuante Para Exploração Sob Gelo), foi testado no Ártico para ser utilizado na exploração do satélite natural.

Rover BRUIE. Fonte: NASA images.

De fato, os estudos em ambientes análogos são muito mais acessíveis do que realizar todos os experimentos no espaço. No entanto, nem tudo são flores: esses locais não são 100% iguais aos extraterrestes. Eles possuem apenas poucos aspectos em comum, seja clima, topografia ou composição do solo, por exemplo. Assim, ao estudar as possibilidades da Antártica e de outros locais no contexto astrobiológico, também é necessário entender suas limitações.