Ilustração de capa criada por Sam Vilasboas.

Sobre a astrobiologia e o futuro da ciência.

Eu fico com a pureza da resposta das crianças…

Campo Grande, apartamento da Nita, natal de 2018

“Você tem certeza de que não quer passar o Natal com a gente? Os meninos vão perguntar sobre você. O que eu digo?” Minha irmã tentava me animar a sair do sofá e passar o Natal na casa dos meus pais.

Pode dizer aos meninos que eu os amo, mas que não conseguirei chegar a tempo para passar o Natal com vocês” Isso foi mais ou menos o que eu disse, enquanto abria mais um saco de salgadinhos.

Eu sempre gostei do Natal. Mas naquela altura, a memória do meu pai já estava ficando bem ruim por causa da demência. Minha mãe estava bem cansada de todo um ano letivo e a nova rotina que estava se estabelecendo com meu pai. E eu havia passado por uns acontecimentos bem tristes nos últimos meses. Por outro lado, meus sobrinhos iam passar mais um ano com a gente. E a única coisa que eu queria fazer era ficar sozinha, deitada, e assistindo bobagens na televisão. 

“Que ano miserável! Eu tenho certeza de que mais nada de bom vai acontecer daqui pra frente. Agora é só ladeira abaixo.” Isso é o que pensamos quando estamos digerindo mudanças profundas. Tão ruim quando digerir minha ceia de Natal baseada em salgadinhos.

Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, em algum momento de 2019

Eu nunca me lembro quando estive no antigo LNLS (a não ser que eu consulte meus cadernos de laboratório). Lá, os dias viram noites, as noites viram dias. Comemos pizza às 4 da manhã. Tudo isso porque é um ambiente de intenso trabalho. 

Para podermos usar os equipamentos de um acelerador de partículas, temos que submeter propostas justificando a importância das análises de nossas amostras sob aplicação das técnicas disponíveis. Essas propostas passam por um processo rigoroso de avaliação, e quando são aprovadas, obtemos o direito de uso do equipamento solicitado por uns três dias. Os equipamentos devem ser utilizados em toda a integridade de tempo dessas quase 72 horas. Por isso é recomendável que trabalhemos em equipe para variarmos turnos e aproveitarmos o tempo nas linhas. Tudo isso porque os custos de manutenção de um acelerador de partículas são muito altos. De qualquer forma, todo cientista vocacionado não vai querer perder o precioso e concorrido tempo de suas análises.

Figura 1. Júlia e eu conversando sobre como analisar suas amostras.

Sob o efeito de muito (muito!) café e horas (horas!) operando a linha de micro-fluorescência de raios-X, Flávia e eu trocávamos ideias sobre nossas pesquisas, enquanto o raio-X “lia” os elementos químicos de nossas amostras. Essa técnica é muito sensível e capaz de identificar elementos que nos ajudam a entender algumas coisas bem interessantes. Uma de minhas alunas, a Júlia (Figuras 1 e 2), tem investigado a preservação de matéria orgânica (talvez sangue, mas ainda não sabemos ao certo) em ossos de mesossauros da Formação Irati. Ela precisa identificar elementos químicos que podem se relacionar de alguma forma à matéria orgânica (como o enxofre, por exemplo) para que consigamos propor modelos sobre as formas de preservação dessas estruturas, bem como as possíveis causas (ambientais? o próprio organismo?) de tipos específicos de preservação.

Quase todos os projetos da minha equipe têm girado em torno de investigar como os fósseis se formam. E, nesse contexto, acabamos nos aprofundando em detalhes que esbarram com alguns objetivos da astrobiologia. Flávia e eu percebemos o quanto nossos projetos tinham em comum. Ela estava tentando entender quais assinaturas químicas os microrganismos podem produzir e como elas se formavam. Eu queria muito investigar o papel dos microrganismos e suas assinaturas químicas no processo de fossilização.

Figura 2. Júlia no LNLS. Ela está tentando encontrar o melhor posicionamento para uma amostra de fóssil de mesossauro para interação com os raios-X.

Eu já conhecia a Flavia de longa data. Ela percorreu toda sua formação como paleontóloga na Unicamp, enquanto eu estava terminando o doutorado na USP. Sempre nos esbarrávamos nos congressos e eventos locais. Mas pertencíamos a “panelinhas” diferentes. Logo que virei docente na UFSCar, em 2013, ela começou a estreitar laços colaborativos com meus grandes amigos Fabio e Douglas. Foi então que a Flavia desenvolveu sua tese de doutorado bastante voltada para (mas não apenas) astrobiologia. E recentemente ela tem unido esforços para atrelar paleontologia a questões da astrobiologia que se encontram na fronteira do conhecimento, por meio de formas avançadas de acesso a dados sobre bioassinaturas (se você tem curiosidade leia Evaluating Biogenicity on the Geological Record With Synchrotron-Based Techniques).

Embora eu tivesse participado inclusive como banca de sua defesa de doutorado, foi só naquele momento (que não sei se era dia ou noite), no LNLS, que Flavia e eu começamos a perceber nossas afinidades. Até aquele dia, eu passei três ou quatro anos em uma interminável sensação de estar “deitada no sofá” (sem a mínima vontade de me levantar). Eu fazia o que tinha que fazer: trabalhava, quase que apenas isso. A pouca energia que eu tinha era voltada para o trabalho. Me descuidei completamente de todas as outras áreas da vida. Com pouca energia, eu estava trabalhando sem vontade, motivação, paixão, propósito… (qualquer uma dessas palavras que nos levam para a frente). Eu sabia que, além de tudo, estava obsoleta por ter me deixado absorver por todas as funções da docência que uma universidade pública demanda. Eu precisava voltar a praticar ciência e para isso resolvi iniciar um pós-doutorado.

Foi só naquele dia, conversando com a Flávia sobre nossas pesquisas, que eu realmente comecei a sair do confortável e tóxico “sofá da apatia”. Acho que há muito tempo eu não fazia algo tão simples, porém tão saudável com alguém: uma troca. 

O espírito de uma eterna aprendiz

A partir daquela conversa com a Flávia no LNLS, eu comecei a cutucar algumas ideias que estavam ali adormecidas, bem quietinhas em mim, embaçadas pela apatia do “sofá”: “Como os fósseis se formam?” Eu estava acostumada a investigar esse tipo de coisa no que eu vou chamar de modo “de trás para a frente”. Esse é o método que os paleontólogos usam para estudar os fósseis, também é conhecido como método observacional. Nós coletamos os fósseis em campo, levamos para o laboratório e descrevemos minúcias de seus aspectos, como forma, tamanho ou composição química. Eu sou muito interessada na composição química dos fósseis. Quando um organismo se preserva, uma série de minerais e compostos orgânicos podem se formar (como eu disse anteriormente) pela atividade de microrganismos. Usando uma série de equipamentos e técnicas que nos ajudam a enxergar em maiores detalhes (como o microscópio eletrônico) ou a acessar a composição química de rochas e fósseis (como a fluorescência de raios-X), conseguimos caracterizar nossas amostras e propor explicações sobre condições ambientais específicas que favorecem a fossilização dos organismos.

Porém, os estudos do tipo “de trás para a frente” podem esbarrar em hipóteses conflitantes. Quando estudamos fósseis, muitas peças podem estar faltando ou podem ter sido profundamente alteradas pelos agentes do tempo (mudanças bruscas de temperatura, umidade, pressão etc). Minerais que preservam fósseis, e que são importantes para reconstituições ambientais, podem se degradar e se transformar em outros minerais, prejudicando nossas reconstituições. O que interpretamos como assinaturas da vida podem ser produtos de origem não biológica. Em suma, quando não acompanhamos algumas minúcias do processo, as transformações que ocorrem durante a fossilização podem não ser acessadas em alguns detalhes importantes. 

O paleontólogo se pergunta: “Qual o papel de diferentes tipos de sedimentos na preservação de uma determinada espécie de peixe?” Ele pode resolver isso no modo “de trás pra frente”, observando e caracterizando fósseis de peixes preservados em diferentes tipos de rochas (veja meu outro texto para esse blog: O peixe de pedra). Ele também pode investigar alguns aspectos dessa questão por meio de experimentos, ou do que eu chamo de modo “de frente pra trás”. Explicando de uma forma bem simples: é possível enterrar alguns peixes em diferentes tipos de sedimentos (como areia ou argila) e verificar desde o início em qual desses substratos os peixes demoram mais para se decompor.

Quando caminham juntas em ciência, observação e experimentação são formas muito eficientes para o teste de hipóteses conflitantes. E era isso o que eu queria fazer: “Será que em vez de analisar apenas os fósseis para reconstruir a forma como eles se preservaram, eu também não poderia realizar alguns experimentos que ajudassem a preencher as lacunas das minhas observações?”

Eu já havia alcançado algum sucesso orientando o trabalho da Amanda no mestrado, além de outras maluquices (se você tiver curiosidade, leia: Paleometry as a key tool to deal with paleobiological and astrobiological issues: some contributions and reflections on the Brazilian fossil record). Embora o cheiro de peixe “podre” tenha tomado conta do campus da UFSCar – Sorocaba durante nossos experimentos, tivemos a sorte de fazer parte de uma comunidade bem compreensiva e acolhedora de professores, técnicos e alunos. Começamos a observar como as propriedades de algumas argilas são determinantes na preservação de partes específicas dos peixes (como olhos e mesmo os ossos). De certa forma, esses experimentos exploratórios também ajudaram a entender como alguns fósseis de peixes se formaram.

Resolvi que investiria na tafonomia experimental, área que tenta investigar e compreender algumas condições que podem engatilhar o processo de fossilização por meio de experimentos. Obviamente, escutei de muitos colegas paleontólogos: “Isso vai ser difícil!”, “Você vai ter muito trabalho!”, “Será que você vai conseguir?”, “Tafonomia experimental nem é paleontologia…” Mas, como diria um certo capitão Butler “francamente, meus queridos, eu não dou a míiiinima“. Eu estava mesmo disposta a fazer algo arriscado e desafiador, e a aprender coisas novas. Escrevi para uma colaboradora querida, de longa data, Profa. Márcia Rizzutto, física da USP, solicitando supervisão para um projeto de pós-doutorado que envolvesse a elaboração de sistemas com condições controladas para teste de ambientes favoráveis para fossilização de organismos. Ela prontamente abraçou a ideia. Entrei com o pedido de afastamento para o departamento em que estou vinculada na UFSCar e comecei a escrever o projeto.

Eram muitos detalhes, muita coisa para me inteirar. Lá estava eu, com 36 anos de idade, virando o rumo da minha carreira para algo completamente novo e desconhecido. E eu estava adorando isso.

As diferentes línguas da astrobiologia

Depois da conversa com a Flávia eu estava me sentindo mais inspirada e confiante sobre minhas ideias. Foi então que encontrei o Doug perto da cafeteira no LNLS.

“Douglas, lembra das minhas ideias malucas sobre tentar reproduzir alguma coisa sobre fósseis em laboratório?” 

“Lembro!”, respondeu o Doug, enquanto misturava seu café com a água do bebedouro (nunca entendi por que ele faz isso).

“Resolvi que vou fazer um pós-doutorado sobre isso.” E fiz uma careta de criança que sabe que está fazendo algo perigoso.

Expliquei meu projeto para o Douglas e, em menos de cinco minutos, já estávamos andando pelo LNLS procurando o Rodrigo. Eu sempre me entendi bem com o Douglas. Apoiamos incondicionalmente as maluquices um do outro. E por isso somos sortudos em termos o Fabio por perto para “colocar ordem no parquinho”.

“O Rodrigo pode te ajudar a montar os sistemas. Ele é muito bom nisso!”, Doug falava, andava rápido e mexia no celular (como de costume).

Eu pouco havia interagido com o Rodrigo até então. Minha última lembrança dele era de quando ele ainda era aluno de iniciação científica do Douglas. Eu estava na microscopia do LNNano, quando os dois entraram na sala. Rodrigo tinha cabelos bem compridos na época. Foi logo entrando e apalpando a parede de revestimento acústico (que minimizava as vibrações sonoras na sala). “É de espuma? Olhaaaaaa… é fofinhooooo!” Era o que o Rodrigo dizia enquanto tateava a espuma na parede. Olhei para o Douglas, gargalhando: “Mas que figura!”

Fui caminhando e pensando “O Rodrigo que apalpa paredes vai ajudar no meu projeto…”. Logo que encontramos o Rodrigo, fomos para uma sala e começamos a rascunhar o melhor sistema possível para simular um ambiente lacustre (um “laguinho” ou “lagoinha”), em que algum organismo pudesse ser depositado ou enterrado em argila, de forma que pudéssemos observar sistematicamente todas as transformações possíveis. Nossa intenção ali era determinar sob quais condições faríamos esse experimento e que variáveis de fato poderíamos controlar (evaporação da água no “laguinho”) ou deixar constantes (oxigenação, temperatura). 

Douglas e eu bombardeamos o Rodrigo de possibilidades. Douglas é astrofísico, e Rodrigo era biólogo, mas tinha mais experiência com coisas vivas do que eu. Todas as vezes que trabalhamos com cientistas de outras áreas temos que exercitar nossa capacidade de comunicação, ao mesmo tempo que não podemos nos acanhar em fazer perguntas (por mais absurdas que pareçam ser). Esse exercício deve ser incansável na astrobiologia, talvez a maior candidata à transdisciplinaridade entre as ciências na atualidade.

Em um dia comum, na minha pesquisa, acontece mais ou menos assim: (1) físicos precisam compreender o que eu, paleontóloga, preciso medir em um fóssil. Eu tenho que saber informar aos físicos (da forma mais clara possível) todos os aspectos e potenciais mensuráveis de um material tão heterogêneo como uma amostra fóssil (às vezes uma mistura esquizofrênica de minerais, ossos e matéria orgânica). Engenheiros e outros técnicos devem estar preparados para mostrar aos físicos o que será possível investigar, dentro de uma série de limitações técnicas. Daí os físicos precisam explicar para mim todas as possibilidades (restritas)… para que eu possa reclamar bastante por ter entendido muito pouco. Essa dinâmica é apenas um pequeno recorte de interações entre cientistas que trabalham em áreas interdisciplinares, como a astrobiologia.

Atuamos em um macrocosmo de muitas especialidades. E por isso, a astrobiologia pode estar sinalizando uma nova forma de fazer ciência: muito se ganha quando diferentes especialidades científicas se unem em torno de um problema. Por mais árduo que pareça ser o entendimento entre “paleontologuês”, “fisiquês”, “biologuês”, dentre outras línguas, estamos criando uma forma nova e mais colaborativa de trabalho. Vale lembrar que grandes descobertas e quebras de paradigma são resultantes de revoluções na estrutura da ciência e na forma de exercê-la. Física e biologia, por exemplo, são ciências muito diferentes em suas origens e fundamentos (recomendo “Isto é biologia”, de Ernst Mayr, se você quiser se aprofundar mais um pouco nesse assunto). Quando as diferenças começam a “atrapalhar” a conversa entre os cientistas, devemos voltar todo o foco à pergunta e em quais contribuições cada um pode fornecer na resolução do problema em questão. E, quando temos muita sorte, novas áreas do conhecimento podem surgir a partir daí (leia também “Como enxergar as primeiras formas de vida” e “Arqueometria“).

Figura 3. Rodrigo fazendo os últimos ajustes nos aquários para o meu projeto

Rodrigo estava entrando no pequeno recorte do meu cosmo. Conversamos por horas naquele dia. Levamos as discussões para o almoço. Rodrigo leu meu projeto com cuidado e corrigiu até as vírgulas. Depois de chegarmos a uma linguagem comum, nós três decidimos que faríamos um experimento piloto, que é uma forma de testar tudo o que pode dar certo ou errado em uma versão mais simples do experimento proposto. Isso é bastante útil para entendermos o que de fato vale a pena ser testado e sob quais condições. 

Menos de um mês depois dessa reunião no LNLS, Rodrigo já havia ajustado os sistemas (muito parecido com aquários) para a execução do piloto do meu projeto (Figura 3). Fui até Campinas com meus alunos só para buscar os aquários (os resultados desse piloto foram publicados como resumo, na página 115 do Boletín de la Asocioación Latinoamericana de Paleobotánica e Palinología. e os resultados finais do projeto serão tema de outro texto nesse blog).

As crianças na lagoa

Em maio, eu receberia um jovem geólogo da Universidade de Poitiers (França), o Thibault, que ia realizar um estágio na minha pesquisa de pós-doutorado. Em sua imensa generosidade e colaboratividade, Flávia consultou Rodrigo sobre a possibilidade de Thibault e eu participarmos da sua coleta de mestrado:

“Araruama um sistema lagunar rico em esteiras microbianas, Liza! Isso pode ajudar você a elaborar novos experimentos sobre processo de fossilização. Vocês devem ir com a gente! Deixe apenas eu consultar o Rodrigo sobre o espaço no carro.”

Imediatamente, Rodrigo escreveu um e-mail copiando todos com as instruções sobre a viagem.

No dia 17 de maio, Thibault e eu madrugamos na casa do Rodrigo em Campinas. Carregamos o carro e dirigimos até Indaiatuba para pegarmos a Flávia. Quatro crianças dentro do carro, rumo a Araruama, Rio de Janeiro. Fazíamos piadas sobre tudo: a estrada, o trabalho e nós mesmos. Não é opinião comum, mas eu considero muito importante trabalhar com pessoas bem-humoradas.

Já no dia 18 de maio, seguimos para a Lagoa Brejo do Espinho.

Figura 4. Da esquerda para a direita: Thibault, eu, Rodrigo e Flavia, na Lagoa Brejo do Espinho.

“Eu estou coletando certinho? Você tem alguma sugestão ou crítica sobre o meu trabalho? Você faria de outra forma?” Essas perguntas têm se tornado cada vez mais raras entre os cientistas (se é que elas já foram comuns), especialmente entre os mais jovens. Mas esse não era o caso do meu amigo Rodrigo. Estar aberto a críticas requer um forte desapego do ego (uma coisa que acaba cegando muitos cientistas). Da mesma forma, a crítica ao trabalho de um colega é algo que deve ser exercido com muita elegância e humildade. Afinal, é honroso poder colaborar no trabalho de alguém. No final das contas, eu estava ali na posição de aprendiz, tentando sugar todos os conhecimentos do Rodrigo. Não pude responder seus questionamentos de forma satisfatória.

Estávamos organizados em duas duplas de coleta: Rodrigo e eu, Flávia e Thibault. Todos descalços, no frio, em um corpo d’água, no meio do mato, sob uma chuvinha “fina e irritante”. Eu sou o caso atípico de paleontóloga que prefere o laboratório ao campo (Figura 4). Mas compreendo que o campo é uma etapa necessária, para que então eu possa me divertir no laboratório.

A sensação era a de estarmos andando sobre um grande pote de gelatina bem escorregadia. Eu estava bastante preocupada porque carregava comigo uma bandeja com todos os recipientes de coleta do mestrado do Rodrigo: uma escorregadinha e eu simplesmente destruiria a parte importante de um elaborado e elegante projeto em segundos. Ainda não sei porquê ele confiou essa tarefa a mim. Afinal, um projeto científico custa dinheiro e tempo. Contrariando todas as minhas expectativas, consegui cumprir a missão (foram longos minutos me equilibrando de um ponto de coleta a outro).

Araruama apresenta o maior ecossistema lagunar hipersalino do mundo. Esse sistema de cerca de 220 km² também é caracterizado por locais em que florescem esteiras microbianas (Figura 5), caso da Lagoa Brejo do Espinho. As esteiras são formadas pela associação entre carbonato de cálcio, e outros sedimentos, à mucilagem (um tipo de meleca cheia de nutrientes) secretada pelas bactérias (daí o aspecto e a textura de uma gelatina). 

Figura 5. Pedaços de esteiras microbianas coletadas em lagoas de Araruama, Rio de Janeiro. Fonte: https://www.geoparquecostoeselagunas.com/araruama/

Eu comecei a me interessar muito pelos trabalhos do Rodrigo e da Flávia porque eles estudavam essas incríveis bactérias que construíam estruturas que mais tarde poderiam se tornar ou serem preservadas em rochas: os microbialitos. 

Os microbialitos são uma forma interessante que a vida encontrou de deixar a sua assinatura. Eles são o que chamamos de icnofósseis: registros das atividades dos organismos. As pegadas de dinossauros são um exemplo bem fácil para entendermos o que são icnofósseis. Em algum momento, há dezenas de milhões de anos, os dinossauros caminhavam sobre sedimentos que, em condições muito específicas, poderiam preservar suas pegadas. Muitas vezes, o “dono” das pegadas não se preservou como um fóssil, mas as pegadas (icnofósseis, veja mais em outro texto meu para este blog: O peixe de pedra) são muito importantes para que os paleontólogos possam investigar vários aspectos sobre a vida desses animais (comportamento locomotor, fase da vida, peso etc.) e o ambiente em que eles caminharam (dunas, lama etc.) (para conhecer um pouco mais sobre pegadas, veja: Rastros fantasmas: pegadas do cretáceo).

O mesmo raciocínio vale para os microbialitos. Os microrganismos que compõem as esteiras microbianas podem não conseguir se fossilizar, mas toda a série de substâncias orgânicas e minerais secretados por eles pode se preservar e revelar informações muito interessantes sobre os microrganismos e o ambiente em que eles se proliferaram. 

Eu estava bastante curiosa sobre como as esteiras microbianas se tornam microbialitos. Primeiro, porque eu sempre tive uma curiosidade imensa sobre como os organismos podem se fossilizar. Segundo, porque eu já havia percebido que alguns dos fósseis que minha equipe tem estudado apenas se preservaram por meio da atividade de microrganismos (em um processo muito parecido com a formação de microbialitos, veja mais em: “Bactérias que preservam fósseis“). Terceiro, porque eu estava conseguindo fazer o que mais gosto: sair da minha zona de conforto, e aprender sobre como cientistas de outras áreas podem enxergar um mesmo problema.

Assim eu fui parar na Lagoa do Brejo do Espinho, me equilibrando para não cair na gelatina que se materializou nessa área até então desconhecida para mim: a astrobiologia.

O entusiasmo pelo desconhecido

Para atuar em uma ciência como a astrobiologia, você deve se familiarizar com algumas regras básicas:

Primeira: não ter medo de fracassar

E quando eu me refiro a fracasso, eu quero dizer perder um experimento inteiro porque você não levou em consideração que algo inesperado, como uma contaminação ou a queda de energia, fez com que você interpretasse seus dados de forma equivocada ou mesmo perdesse todo o seu trabalho.

Segunda: seja curioso a respeito da natureza das coisas

Seja curioso o tempo todo. Por exemplo, pergunte ao técnico que ajuda você a operar um equipamento para a análise de suas amostras, como aquele equipamento funciona, suas potencialidades e limitações. Quebre um pouco as regras (as regras, não os equipamentos!): teste parâmetros diferentes e não previstos pelos protocolos. O técnico não vai gostar muito. Muitas vezes isso não vai funcionar. Mas se você não testar, não terá como saber.

Leia o tempo todo: livros, blogs, artigos. Veja aulas e palestras on-line. Participe de eventos científicos. Por mais que você não compreenda alguns termos ou conceitos de início, exercite todos os dias o hábito da leitura. Isso deixa seu raciocínio afiado, ajuda a fazer relações entre ideias e te prepara para uma possível serendipidade (uma descoberta imprevista). Ou você acha que os cientistas descobrem grandes coisas apenas por sorte? Você precisa estar preparado para enxergar algo novo.

Terceira: saiba trabalhar em equipe

Converse com cientistas de outras áreas a respeito do seu objeto de pesquisa: um biólogo aborda um problema diferente de um químico, que aborda esse mesmo problema diferente de um engenheiro….

Dias atrás, minha querida amiga Mari (astrônoma e mãe do Rodrigo) solicitou uma reunião a respeito de um projeto em que estamos trabalhando juntas: “Não sabemos muito a respeito disso e vamos começar do zero”. Foi o que ela disse. Quando trabalhamos em equipe temos que expor nossas potencialidades e limitações de forma bem honesta. Isso é ser cientista. O que nos leva à regra seguinte.

Quarta: saiba reconhecer e identificar o que você não sabe

Figura 6. Flavia e eu conversamos sobre planos futuros de trabalho em conjunto.

Muitas vezes, quando não sabemos algo a respeito de um assunto, não conseguimos ir muito adiante no aprendizado porque sempre tentamos “atacar” o problema da mesma forma. Não faça isso. Reconheça suas deficiências (por mais básicas que sejam) e vá atrás de informações que as supram. Eu sou péssima em matemática. Muito do conhecimento que preciso para interpretar minhas análises podem demandar o uso de fórmulas e programas complicados. Eu assisto aulas on-line de física e matemática (muito básicas mesmo). Então eu consigo identificar e sanar o problema que impede meu aprendizado sobre o uso de um programa, por exemplo. Quando eu não consigo, eu peço ajuda a colegas colaboradores. Mas não desisto de aprender, nem que seja para tentar me comunicar melhor com cientistas de outras áreas.

Não se iluda. O processo de aprendizado pode levar muito tempo (meses, anos, ou uma vida inteira). Até hoje assisto aulas de graduação nas áreas em que tenho deficiência e que se relacionam profundamente com as minhas linhas de pesquisa: mineralogia, geoquímica etc.

Quinto: nunca deixe de ser criança

Talvez essa seja a regra mais importante. A lembrança que tenho do Rodrigo tateando as paredes do laboratório de microscopia, ou pulando de alegria quando eu lhe emprestei alguns reagentes, sempre interagindo de todas as formas possíveis com o mundo ao redor: é assim que um cientista deve ser.

Figura 7. Rodrigo caminha pela praia

 Aposte corrida com um feixe de luz, pegue um punhado de sedimentos da Lua e sinta a textura em suas mãos, imagine as bactérias do meio de cultura se alimentando e secretando minerais, pouse em uma cratera de Marte…. E se você não quiser ir muito longe, afunde os seus pés na Lagoa do Brejo do Espinho e imagine que você está voltando mais de 3,5 bilhões de anos na história da vida na Terra… ou de Marte!

Sobre saber perder…

Naquela viagem a Araruama (e mesmo antes), Rodrigo e Flavia me devolveram uma coisa valiosa, que carrego comigo até hoje. Não consigo nominá-la. Ela está lá dentro, quentinha… e tem gerado toda a energia que preciso para ser cientista.

No último dia de campo, fomos à praia. Rodrigo foi caminhar e eu fiquei sentada com a Flavia de frente para o mar. O mundo havia ganhado cores novamente. Nós duas trocávamos ideias até sobre as areias da praia. Em um golpe de sorte, Thibault capturou esse momento (Figuras 6 e 7).

“O Rodrigo me incentivou a ser sua amiga, porque eu tinha um certo medo.” Infelizmente eu escutei essas palavras da Flavia no dia em que o nosso amigo se foi. Perdemos muito mais que uma constelação. Rodrigo se aproximou tão rápido, impulsionou boa parte do meu projeto, tornou-se um amigo querido, e, só depois eu soube, incentivou a Flavia a também se aproximar de mim. 

Perdi o meu amigo querido. Mas o que ele deixou foi tão forte e transformador que eu nunca mais tive dúvidas de que a vida sempre reserva boas surpresas.


Autora: Mírian Pacheco